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23.5.06

  Semelhanças  [13:16]
Ele aprendeu muito com tudo aquilo. Jogou futebol com o garoto, o levou para passear, tomaram sorvete juntos, eram os dois contra o mundo. Não havia choro do menino que ele não contesse nem cansaço daquele que este não entendesse. Se tornaram carne e unha em apenas alguns meses de convivência. Não era o pai, ele sabia que não, mas se esforçava para fazer o papel de um.

* * *

Saiu de casa correndo, chovia muito naquela tarde. Entrou no carro e foi até o local combinado. Desceu do veículo e entregou a pasta ao homem que o esperava; ali estava tudo o que podia separá-lo do garoto. Por longos minutos o homem grisalho e gordo analisou cada pedaço de folha, cada cópia, cada documento, cada contracheque -- toda a vida do homem. Juntou tudo de novo dentro da pasta e, engregando-a de volta, sentenciou: "Três dias."

O homem chorou. Chorou por horas até conseguir voltar para casa. Viu o menino dormindo em sua cama e agradeceu por ele ainda estar ali. Lembrou de tudo o que passaram juntos e do quanto poderia ter sido seu pai no pouco tempo em que tiveram; lembrou que nunca o havia chamado de filho. Se perguntou se seria ele o problema e o que havia feito errado. Sentou no sofá da sala e chorou até o menino acordar. E o garoto não perguntou. Sentou ao lado da pessoa mais importante de sua vida e enxugou suas lágrimas.

* * *

Se encontraram há algumas semanas numa estação de metrô. Ele mais magro, o menino mais forte, os dois mais desacreditados. O rapaz, agora um homem formado, estuda letras e escreve nas horas vagas. Terminava, ali sentado, seu segundo livro. Falava sobre a vida e seus caminhos e opções.
O homem, agora velho e doente, lia a bula do seu remédio de tarja preta e conferia os trocados da passagem.
Sentaram coincidentemente um ao lado do outro e um dos dois puxou a conversa. Falaram sobre o livro e o remédio, sobre a vida, sobre adoção, sobre a miséria, a discriminação, o excesso de burocracia e sobre o que os afligia. Falaram sobre o que os deixava feliz, sobre mulheres, carros, futebol e os sorvetes que tomaram durante suas vidas. Conversaram sobre tantas coisas e se divertiram tanto que nem parecia que só meia hora havia passado. O metrô chegou e se despediram.
-- Prazer em conhecê-lo.
-- O prazer é meu, filho.

Nunca entenderam como uma conversa tão rápida com um estranho pudesse trazer tanta felicidade.


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