13.10.06
Rodoviária
[16:31]
Uma mochila cai. Barulho. Gente falando, principalmente nos guichês, nas lojas e nas cadeiras de espera. Clima de aeroporto, não fosse a falta de luxo. Uma menina levanta a mochila e eu volto ao normal. Quarenta minutos. Um casal de gringos me olha, sentado no chão, abrindo a mochila para começar a escrever. Pareço ser de outro mundo. Eles também. Às vezes ele sai e volta com um salgado. Na vez dela, falam alguma coisa numa língua ininteligível e ela senta na cadeira que eles dividem. Contam moedas e ela sai. Ele veste um chapéu preto típico de turista, apesar de não aparentar idade (lá uns 25 anos) para esse tipo de extravagância. Os preços são exorbitantes e minha fome passa logo ao saber que um salgado de trinta segundos (que é o tempo que levo para comer) custa duas pratas e cinqüenta, um roubo disfarçado de comida. Apesar disso, faço questão de ser assaltado. Com refrigerante, mais dois reais. A gringa chega e os dois vão embora, cada um com sua mochila gigante, daquelas que a Al Qaeda planeja atacar um dia. Acompanho a virada firme do minuto passando no relógio. Sentei desse lado aqui porquê do outro arrancaram os ponteiros. Os aventureiros deixaram uma cadeira vazia, mas a vista que ela proporciona não me atrai -- cabines telefônicas nunca foram interessantes para mim. Meia hora. Cheiro de pipoca. Mais duas cadeiras vazias, desta vez de frente para o relógio. Mas eu não consigo me ajeitar nessas cadeirinhas minúsculas. Além do mais, agora já tem gente sentada. Conversa, comida, olhares. Gente que quer saber o que eu escrevo, dá pra perceber nos olhares, e gente que só quer saber de comer. Bons eles, que podem. A trilha sonora gentilmente proporcionada pelo rádio à pilha de um par de comunistas (aparentemente machos) (aparentemente) dá embrulho no estômago, que parece começar a fazer a digestão, mas no sentido contrário. É daquelas músicas dos anos 70, da época dos hippies, de quando as pessoas tinham motivos suficientes para ouvir esse tipo de porcaria (a falta de opção, com certeza, era um deles). O discurso feito pelo mais entendido ao iniciante é típico da classe utópica discriminada pela sociedade capitalista e acumuladora de bens. Mais vinte minutos, meus ouvidos que o digam. Sentar no chão, que para mim é prazer e necessidade, para eles parece ser uma forma de protesto, e só faltava uns cobertores e umas placas pra completar o piquete. Quinze minutos, fora o atraso. Estranho sou eu, sentado no chão e escrevendo coisas que minha platéia nunca vai ler. Me sinto num filme daqueles em que o mundo acaba e o caos se instaura, as pessoas gritam, gemem, conversam aos berros e não conseguem ficar paradas. O segurança que passa com a mão numa pistola confirma o estado de pânico das autoridades, e o ruim é pensar que eu não sou figurante. Antes fosse. Cinco minutos, fora o caos e a gritaria. Hora de ir.
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