31.10.06
Sozinho
[13:31]
"Quando você puder dizer 'isto é o pior', o pior ainda está por vir."
Ontem esqueci minha segunda mochila em algum canto. E alguém a levou pra dar uma volta. Chinelo, roupas, escova de dentes, barbeador, desodorante... Deu pra comprar uma escova nova, mas eu e minhas roupas já estamos começando a feder.
Mas tudo bem, é só até amanhã.
Só até amanhã...
Edit [13:58]: Eu só tenho 18 anos... Ficar sem roupa não deveria ser o fim do mundo... Ou deveria!?
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23.10.06
Parece que não
[17:09]
Nunca soube se a idéia de faculdade é realmente tão boa quanto dizem. Mas vejo tanta gente sobrevivendo na merda que me dá vontade de ser alguém, e só isso. Quando dizem que fazer uma faculdade é o primeiro passo para ser alguém na vida, não tem ninguém mentindo. Errado é dizer que isso vai te fazer uma pessoa (mais) feliz. Mais feliz se você fosse você, e não alguém.
* * *
Ficar sem almoçar é tão gratificante que a gente pensa até em jejuar e oferecer o momento a algum propósito para com Deus, mas o biscoito de chocolate é mais forte que qualquer uma de minhas reclamações. Meu estômago se solda se for contrariado. E não tem chororô.
* * *
Vamos ser solidários. Doem uma vaga na Petrobrás para mim, e eu juro que vou lembrar de vocês quando for um DJ de sucesso.
Alguém entendeu alguma coisa? Nem eu...
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17.10.06
Podem gritar
[15:45]
Podem gritar, espernear, chamar quem quiser, o capeta, o Machado, o Sandy e a Júnior; podem pedir penico, beijar meus pés, atravessar a rua sem olhar para os dois lados gritando "gerônimo", podem sair pelados, podem fazer uma caveira ou duas; podem dizer e fazer o que for, provar e reprovar, explodir um prédio, saltar de um avião sem pára-quedas, arremessar o Papa pela janela, desovar um ovo, dividir a Terra no meio, botar e tirar o Sabiá das palmeiras, ir pra pasárgada, tirar a bandeira do Manoel e a Ponte Preta do Stanislaw; podem virar do avesso o presidente, podem mascar chiclete e cospir na cabeça da mãe, destruir um carro em um poste, deixar frouxas todas as porcas da roda do ônibus, cair de cabeça da Rio-Niterói;
mas se tem uma coisa que podem ter certeza...
é que eu amo a minha namorada, e isso nunca vão mudar.
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Dura realidade...
[15:40]
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15.10.06
Nós todos vamos morrer...
[17:23]
... então a idéia não é tentar existir para sempre, mas fazer alguma coisa que vá.
Retirado de um blog da vida. Interessante na teoria, mas difícil (e não impossível) na prática. Mudar o mundo pode não parecer tão fácil, mas ele não seria o mesmo se não fosse você.
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13.10.06
Rodoviária
[16:31]
Uma mochila cai. Barulho. Gente falando, principalmente nos guichês, nas lojas e nas cadeiras de espera. Clima de aeroporto, não fosse a falta de luxo. Uma menina levanta a mochila e eu volto ao normal. Quarenta minutos. Um casal de gringos me olha, sentado no chão, abrindo a mochila para começar a escrever. Pareço ser de outro mundo. Eles também. Às vezes ele sai e volta com um salgado. Na vez dela, falam alguma coisa numa língua ininteligível e ela senta na cadeira que eles dividem. Contam moedas e ela sai. Ele veste um chapéu preto típico de turista, apesar de não aparentar idade (lá uns 25 anos) para esse tipo de extravagância. Os preços são exorbitantes e minha fome passa logo ao saber que um salgado de trinta segundos (que é o tempo que levo para comer) custa duas pratas e cinqüenta, um roubo disfarçado de comida. Apesar disso, faço questão de ser assaltado. Com refrigerante, mais dois reais. A gringa chega e os dois vão embora, cada um com sua mochila gigante, daquelas que a Al Qaeda planeja atacar um dia. Acompanho a virada firme do minuto passando no relógio. Sentei desse lado aqui porquê do outro arrancaram os ponteiros. Os aventureiros deixaram uma cadeira vazia, mas a vista que ela proporciona não me atrai -- cabines telefônicas nunca foram interessantes para mim. Meia hora. Cheiro de pipoca. Mais duas cadeiras vazias, desta vez de frente para o relógio. Mas eu não consigo me ajeitar nessas cadeirinhas minúsculas. Além do mais, agora já tem gente sentada. Conversa, comida, olhares. Gente que quer saber o que eu escrevo, dá pra perceber nos olhares, e gente que só quer saber de comer. Bons eles, que podem. A trilha sonora gentilmente proporcionada pelo rádio à pilha de um par de comunistas (aparentemente machos) (aparentemente) dá embrulho no estômago, que parece começar a fazer a digestão, mas no sentido contrário. É daquelas músicas dos anos 70, da época dos hippies, de quando as pessoas tinham motivos suficientes para ouvir esse tipo de porcaria (a falta de opção, com certeza, era um deles). O discurso feito pelo mais entendido ao iniciante é típico da classe utópica discriminada pela sociedade capitalista e acumuladora de bens. Mais vinte minutos, meus ouvidos que o digam. Sentar no chão, que para mim é prazer e necessidade, para eles parece ser uma forma de protesto, e só faltava uns cobertores e umas placas pra completar o piquete. Quinze minutos, fora o atraso. Estranho sou eu, sentado no chão e escrevendo coisas que minha platéia nunca vai ler. Me sinto num filme daqueles em que o mundo acaba e o caos se instaura, as pessoas gritam, gemem, conversam aos berros e não conseguem ficar paradas. O segurança que passa com a mão numa pistola confirma o estado de pânico das autoridades, e o ruim é pensar que eu não sou figurante. Antes fosse. Cinco minutos, fora o caos e a gritaria. Hora de ir.
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11.10.06
Mudança de ares (e de gênio)
[16:32]
Após o episódio anterior (que só terminou às 3:30 da manhã de hoje), encontro-me no refúgio mais próximo que posso chegar neste inferno de mundo: a casa de vovô, Rio de Janeiro, cidade maravilhosa e cheia de gente pra não se conhecer, cheia de merda de cachorro na rua e cheia de gritos de freios de ônibus, que poluem a mente mais que qualquer grito de patricinha estérica, por mais estérica que seja. A vida na cidade grande é diferente, diferente do bairro Niterói, diferente da sobrevida em Boassú(çú), diferente das minhocas do interior, ou seja, diferente da porra toda a qual eu estou acostumado. A vida na casa do vovô também é diferente. Aqui eu costumo me emburguesar um pouco, porquê um pouco disso também não faz mal. Costumo esquecer dos problemas triviais, enxergar a vida com mais afeição, destruir os sentimentos ruins que vivem dentro de mim. E pode-se dizer que cada hora deste remédio dura por um dia logo após o fim de sua utilização, o que contabiliza algumas semanas de paz interior. Depois disso eu volto a correr atrás dela por mim mesmo. Cada barra de Nutry, obviamente sorratinada da dispensa, também adiciona algumas horas (senão na paz interior, nos gases interiores) a serem utilizadas(os) depois. O autor desta singela carta ao mundo retorna ao ponto zero (onde a variação de posição torna-se nula, juntamente da média da aceleração, levando-se em conta apenas um referencial para ida e volta), à sua humilde residência (de três andares, no centro da cidade, com piscina, sauna, jacúzi, ofurô, dez quartos, oito meios e dois inteiros, sete vírgula oitenta e um banheiros, área de serviço com mil metros quadrados, casinha, loja de conveniência e -- recém instalada -- a jaula da minha irmã), amanhã, em horário a ser determinado pela agenda cheia.
Observação inútil: quando eu mexo o mouse desta porcaria a caixa de som faz "Bzzzz". Da primeira vez que eu ouvi esta aberração da eletrônica acontecer perguntei-me "Que merda é esta?", mas logo depois me acostumei com o barulho mosquitônico. É a vida.
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10.10.06
Boa rotina
[14:31]
Acordar às sete, às oito (desligar o rádio) e às nove, correr para um banho e para um ônibus, necessariamente nesta ordem, senão você se pega de toalha pagando a passagem com o sabonete (se cheio de pentelhos ou não, vai de cada um). Perceber que está frio, lembrar que os casacos não estão com você, culpar a sua ignorância e preguiça ("Não vou voltar em casa e trazer uma mala inteira só pra um casaco") e rezar pra não chover. Chegar atrasado na aula, correr pra copiar a matéria, descobrir que a cinderela virou abóbora e que a prova que, muito na merda, você tiraria cinco, te mostra que você pode ficar muito mais que muito na merda. Utilizar a psicologia do foda-se, bater a cabeça na carteira e se convencer de que tem que estudar. Receber um elogio da professora. Encontrar algo de cabelo perdido no chão e incorporar ao patrimônio até a próxima aula de cálculo. Fazer trabalho em grupo. Descobrir que angu é polenta (ou que você não faz a menor idéia do que seja angu) e comê-lo com hamburguer de frango, arroz e feijão. O pessoal solidário te garante um copo de guaraná (e perceber que estava quente faz parte do seu eu sem fome). Caminhar, caminhar até a Praia Vermelha, ir ao laboratório, mandar mensagem pra namorada e teclar com a própria irmã no ICQ -- no SEU ICQ --, que está acompanhada da sua mãe, rindo sabe-se lá do quê.
Ir fazer trabalho.
Pelo menos, até agora, não choveu. Graças a Deus.
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